segunda-feira, 6 de julho de 2015

PODER. O QUE SERÁ ISSO?


Do terraço da casa, Oscar Schindler e o comandante do campo de concentração tinham a visão de todo o pátio, por onde transitavam os judeus que ali estavam confinados.

Como anfitrião, em dado momento o comandante pergunta a Oscar se ele sabe o que é poder. Então realiza uma demonstração impressionante para seu amigo visitante. Lá do alto em sua casa, o comandante escolhe uma vítima no pátio, aponta seu rifle para o escolhido, que é então atingido e morto por uma bala certeira. Com aquela demonstração, o comandante encerra seu o ato dizendo que aquilo era poder.

Em outro dia qualquer, Oscar novamente em visita ao comandante, presenciando que a ordem do dia estava prestes a acontecer, no momento em que o comandante aponta a arma para seu próximo alvo, interrompe a concentração com a pergunta: Sabe o que é poder ? 

A partir daí vemos uma luta emocional, contrapondo a ideia de poder do comandante diante daquela situação de endeusamento. Oscar conduz o mesmo a refletir no real significado de poder. Poder não é você desejar, ter condições e realizar algo. O verdadeiro poder é escolher não fazer aquilo que se deseja e tem condições de realizar. Isso é muito mais difícil, isso de fato é poder.

Ali o comandante percebe que pode fazer mais uma vítima, mas decide não fazê-lo, desviando então a mira daquela pessoa. Aquela arma apontada, após alguns momentos de reflexão é baixada, e, pelo menos naquele dia, uma vida foi poupada (ainda que aquela vida não soubesse que seria a vítima daquele dia).

Olhar profundamente as situações que nos cercam, leva-nos a experiências incríveis. Quando reconfiguramos as leituras e propostas que nos chegam diariamente como bombardeios de todas as direções, ao deixarmos de lado nossas verdades e crenças, acabamos por achar que empoderamento é estarmos munidos de todas as armas para sermos notados como poderosos, inacessíveis e infalíveis.

Falamos da necessidade que gera aquela capacitação exacerbada de superarmos os resultados e pessoas até nossos limites para podermos ser e adquirir tudo o que desejamos. Passamos pelos “beijinhos no ombro” ao mostrar o quanto somos superiores dos demais nas nossas condutas e escolhas sem fazer conta do impacto que elas representam em terceiros. Também usufruindo de elementos inibidores da capacidade de locomoção ao dirigir um carro, potencializamos uma tragédia. Já enquanto menores que delinquem, o fazemos por conta do poder que “a lei outorga”. E obviamente não podemos esquecer da máxima gritada aos quatro ventos do mundo midiático em que “atitude”, é encararmos as pessoas de forma intimidadora. 


Usando essas referências auto intituladas de poder, tão drasticamente condutoras e reforçadas cada vez mais na sociedade moderna, vejo como somos marionetes conduzidas por inverdades plantadas de forma tão verdadeira, fazendo da irracionalidade um modelo comportamental usado como reforço auto afirmativo que não se firma. Sendo assim me resta apenas uma única pergunta pra tudo isso: Será isso poder ?

Refletir sobre quem somos de fato, e quem não somos, e quem desejamos nos tornar, talvez seja um bom começo para um caminho diferente. Certamente você tem poder para fazer isso.


Demétrius Rocha