quinta-feira, 28 de abril de 2016

O FILHO PRÓDIGO. CONSEQUÊNCIAS DA INCONSEQUÊNCIA.

Boa parte de nós ouviu falar da parábola do filho pródigo.

Inspirado na obra de Henri Nouwen com o tema desta reflexão, vemos o grande ensinamento que esse livro nos traz.

O holandês Rembrandt (1606-1669) foi um impressionista fora de época. Contemporâneo do período Renascentista, considerado um dos maiores nomes da história da arte europeia, retratou de forma excepcional dois momentos vividos pelo filho mais novo do conto que perdura já 2 milênios.

Lembrando brevemente, a parábola trata de um homem muito rico do oriente médio que possuía dois filhos. O mais novo pede sua parte da herança ao pai, com o desejo de sair pelo mundo desfrutando suas descobertas e independência para viver livre como sempre desejou. O pai atende seu pedido concedendo-lhe sua parte da herança, de forma que o filho então vai embora deixando tudo para trás em busca de suas vontades.


A primeira imagem trata-se da obra Filho pródigo na taverna, de 1635 onde Rembrandt retrata a si mesmo como o filho mais novo logo após ter recebido a herança de seu pai ainda em vida, desfrutando dos prazeres de um bordel, acompanhado aqui da personagem feminina que retrata sua esposa Saskia. É inegável a capacidade de mostrar quão satisfeito o filho mais novo estava tão logo começou a usufruir os benefícios de estar endinheirado, tendo a seu favor todas as suas vontades satisfeitas como sempre desejou.

Podemos observar aqui, que de fato o objetivo que tinha bastante definido tempos atrás, por meio de decisões tomadas, fora alcançado. Aqui vemos o seu resultado esperado.

Porém, num espaço de quase 30 anos, Rembrandt, retrata um segundo momento daquele personagem que começara com sua vida feliz e totalmente satisfeita enquanto desfrutava do alcance de seus objetivos. De forma totalmente inesperada, não fosse conhecermos a parábola e seus resultados, vemos um cenário bastante diferente.

A obra A volta do Filho pródigo, de 1662 nos faz ver uma grande diferença daquele filho altivo, decidido que se tornou tão independente. Aquela figura da taverna de décadas passadas não existe mais. O que vemos ali é um jovem que outrora sustentava sua vasta cabeleira encaracolada vestido de plumagens e roupas ostensivas frequentando os melhores e mais caros lugares, agora, ajoelhado diante de seu pai, com seus cabelos raspados, pés sofridos à mostra e coberto com panos que deixavam longe qualquer impressão luxuosa do passado.


O que aconteceu nesse intervalo de 27 anos? Qual o fruto das escolhas que o filho mais novo realizou? Como as decisões tão assertivas que tomou puderam resultar num estado tão deplorável? Sabemos que a parábola descreve que o rapaz gastou tudo o que tinha, entrou num processo de declínio chegando ao ponto de alimentar-se com os porcos de seu patrão, quando então um dia, decidiu voltar pra casa.

Hoje podemos pensar não somente no resultado das escolhas deste personagem, que no primeiro momento não podia supor suas consequências pois o objetivo era se dar bem nas suas decisões. Vale refletir no ANTES.

Quais foram os aspectos motivacionais que levaram o filho mais novo a romper com sua família, seu pai e irmão mais velho, exigindo a parte que lhe cabia da herança? Pensemos nos fatos geradores que levaram-no a optar pela “morte antecipada de seu pai” para usufruir de algo que ainda não era chegada a hora. A posse antecipada da herança sugere a independência e amadurecimento precoce do filho, quando no lugar das coisas acontecerem dentro do curso natural na relação de tempo e espaço que é diferente para cada ser humano, ele preferiu por conta própria, acelerar processos. Criando situações estratégicas altamente seguras, tomando decisões para que nada escapasse ao seu controle e conseguir o que desejava que era sua herança, então partiu.

Estava o filho mais novo pronto para partir após largar tudo? Tinha ele maturidade suficiente para ser tão independente quanto pensava? Tinha compreensão e sabedoria suficiente para administrar seu dinheiro, tempo e decisões para que seu objetivo perdurasse de forma esperada mantendo-o independente pelo resto de sua vida?

Parece que não.

Quem sabe poderia ele fazer experimentos, tirando curtos períodos de férias, e aos poucos ir se descobrindo.

Quantas vezes agimos como o filho mais novo da parábola e fazemos a mesma coisa. Quantas vezes temos preocupações em realizar nossas vontades imediatas utilizando todos os recursos que estão a nosso favor hoje, sem saber se eles estarão disponíveis amanhã. Quantas vezes rompemos nossas relações em troca de corrermos loucamente atrás daquilo que parece ser mais atrativo e rápido? Quanto tempo dura a satisfação de nossas escolhas quando não consideramos o zelo e proteção trazidos de nossa família e pessoas que nos amam?

Será que faz algum sentido, esperarmos o tempo natural de algumas coisas acontecerem, enquanto amadurecemos diariamente, nos planejando, criando planos, analisando e observando, para assim tomarmos decisões?

Para cada um de nós ficam mais algumas perguntas: Quais são as consequências das nossas inconsequências? Teremos que esperar 27 anos para saber? Será que teremos a chance de, se voltarmos atrás encontrar o abraço do pai e começarmos de novo?

Será?

Demétrius Rocha

25 comentários:

  1. Fica aí registrada a imagem do Pai Celestial. Seguros estamos nas seguras mãos...

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    1. Olá Attila. Que ótima sua leitura. Obrigado por compartilhar!

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  2. Meu amigo Demétrius, sempre postando coisas de conteúdo excepcionais para nossa vida. Parabéns!!!
    Richard Max

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    1. Olá Richard, que bom que gostou. Obrigado por aparecer!

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  3. Filho pródigo, parabéns! ótima escolha na parábola. Simplesmente fantástico para alto-avaliação. Com certeza precisamos ter as respostas para essas perguntas....não podemos aguardar os 27 anos..

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    1. Belo texto com a inspiração desta parábola na aplicação do projeto de vida de cada um de nós. Parabéns amigo!
      Bene Max

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    2. Olá Benedito Max. Que bom que gostou e pode enxergar a aplicabilidade desta reflexão!

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    3. Rosana. Vale a pena refletirmos antes para minimizarmos os impactos negativos de decisões que podem aparecer depois de muito tempo não é? Obrigado por sua participação!

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  4. Muito bom meu amigo, irei seguir e compartilhar.
    Parabéns.
    Keder

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  5. Parabéns pelo conteúdo, vale a pena acompanhar esse trabalho! ��

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    1. Olá amigo/a. Obrigado pela sua participação, que bom que tenha gostado. Continue nos acompanhando!

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  6. Bela parabola. Enquanto Astróloga, me chamou atenção o tempo 27 anos. Saturno, Cronos na mitologia, Deus do tempo, de onde vem a palavra cronologia, leva em torno de 27/ 28 anos para realizar seu primeiro retorno a posicao natal. Saturno nos fala de responsabilidade, disciplina, dedicação, compromisso com nossos projetos. Saturno nos cobra e faz refletir se estamos verdadeiramente prontos. Se iniciamos algo sem colocar is alicerces necessarrios provavelmente 28 anos depois na avaliacao para Inicio de um novo ciclo, podemos perceber que nada construimos. Saturno é o Velho Sabio, o Tempo e a Matiridade.

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  7. Olá Regina. Que rica sua contribuição!
    Responsabilidade, disciplina, dedicação e compromisso são competências de ultra relevância no processo de preparação da tomada de decisão. Estas competências sendo consideradas, certamente tem potencial de sucesso por tempo prolongado no lugar da eventual ingenuidade e inconsequências aprendidas no texto apresentado.
    Muito obrigado por sua visita! Convidamos você a participar sempre que possível acompanhando nosso trabalho e demais reflexões.

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  8. Parabéns pelo conteúdo da página...Gera reflexões e insights! Abraços

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  9. Olá Cleber, muito obrigado pela sua visita!
    É uma grata satisfação ter sua participação, continue nos prestigiando se as reflexões fizerem sentido pra você.

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  10. Marco Aurélio G. de Oliveira14 de maio de 2016 01:24

    Desde a primeira fase do Direito Romano, até os dias atuais, a sociedade evoluiu muito em alguns aspectos, porém em outros permaneceu com praticamente as mesmas diretrizes, posto que certos institutos pouco se modificaram.
    Nesta época, as famílias e ou pessoas que fossem vítimas de crimes ou de desrespeitos sociais poderiam exigir do autor do delito o “pagamento na mesma moeda”. Agia-se diretamente sobre o ofensor, como punição pelos seus atos ilícitos.
    Levando em consideração essa Parábola, vale salientar que durante séculos surgiram e como ainda surge nas melhores famílias “filhos pródigos”.
    Que comparado ao jovem do texto de “cabelos encaracolados” se rebelaram com os “valores” cultivados pela família, ou porque não dizer “valores opressores”, que naquele momento impediam este de voar pelos horizontes da vida.
    Muitos em seus vôos acabam traçando linhas diversas não aceitas pela sociedade, porém, mesmo com suas asas compridas acabam caindo e são socorridos por lobos vorazes.
    E com o amadurecimento, ao longo da vida, e conseguindo se curvar para sua própria humildade que estava “trancada” esse jovem já sem os “cachos na cabeça” se curva pedindo para voltar ao seio de sua família.
    Quantos sem esses “cachos na cabeça” depois de 30 anos precisam dessa oportunidade em voltar...
    Como é cediço, os valores mudaram com o passar dos tempos, porém a ética sempre continua.

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  11. Olá Marco Aurélio. Muito obrigado por contribuição tão rica. Vale muito refletir sobre seu comentário quando apontei a pré-saída de casa e você ajudou muito melhorando o viés do pós-saída. Ainda que a sociedade atravesse séculos e complete seus milênios, a lei natural das relações familiares tidas como "valores opressores" tem o mesmo modi/modus operandi. Às vezes, enquanto temos os cabelos encaracolados, buscamos processos "libertários" e realmente somos acolhidos pelos lobos vorazes. Ainda que passemos por situações parecidas, queira Deus que tenhamos a oportunidade do retorno ao lar após tanto tempo.

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  12. Otima reflexão!!
    Mudanças sustentáveis são sempre bem vindas... Gradativas, planejadas.. Mas sempre em movimento!!
    Parabéns pelo texto!!

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  13. Olá amigo/a. Obrigado pela sua participação, que bom que tenha gostado. Planejamento e movimento! Continue nos acompanhando e não se esqueça de se identificar na próxima visita. :)

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  14. Belo texto!
    O livro de H Nouwen, A Volta do Filho Pródigo, foi um dos melhores livros que eu li sobre espiritualidade. Muito profundo.

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    1. Olá Leandro, soube que esse post foi seu por nossa conversa no dia de hoje. Fico muito feliz em saber que ambos tivemos a oportunidade de ser tão edificados com esta obra tão fantástica de Henri Nouwen. Obrigado, apareça mais, é uma satisfação recebê-lo amigo.

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  15. ...Linda passagem... Uma narrativa contemporânea...Poderíamos traduzir de várias formas esse quadro e toda a história bíblica que inspirou...Um olhar nas coisas que realmente fazem toda a diferença em nossa vida, à aquilo que será passageiro e efêmero.. Espero que Deus possa abençoar sempre sua vida.... grande abraço.

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  16. Marcio, realmente pensando na efemeridade da vida vale sempre lembrar que um novo olhar sobre velhas situações podem melhorar nossa caminhada não é mesmo? Muito obrigado por sua visita!

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