quinta-feira, 25 de maio de 2017

"Liberdade para se falar tudo e responsabilidade em tudo o que se fala".

Muito interessante a chamada da semana passada num periódico conhecido da ANER (Associação Nacional de Editores de Revistas), que dizia algo parecido com o tema de hoje.

Temos falado muito em sala de aula, principalmente para o pessoal de ADM e Gestão da Qualidade, sobre o que chamamos de repertório.


Nos dias de hoje somos bastante habilidosos com a liberdade que temos para falar tudo o que nossa mente abriga. Às vezes nos tornamos mestres para criticar posições contrárias às nossas e temos na ponta da língua as respostas prontas antes mesmo das perguntas aparecerem. Somos estimulados pela concorrência da empregabilidade a ter um discurso que demonstre quão preparados estamos para os desafios e possibilidades. Afinal, quem melhor que nós para falar de futebol, política, direitos humanos ou “dos manos” como já se ouviu por aí? Quem melhor que nós para prontamente tecermos comentários sobre tudo e todos? Somos rápidos em chamar alguns de fascistas, machistas, feministas e um tanto de outros “istas” que podemos escolher na tabela que vamos usar no dia.

E depois de fazermos uso de toda essa liberdade num mundo de infindas possibilidades, onde jogamos nossas palavras para o universo se virar com elas, o que de fato fica?

Existe uma situação que  pode nos salvar de tropeçarmos naquilo que falamos e nos livrar do auto engano quando não sustentamos nosso discurso. Algo capaz de tornar as coisas diferentes de maneira eficaz. Por isso que compartilhamos a ideia da ANER, como ponto de partida pra falar do já citado repertório.

Sem repertório não somos capazes de opinar verdadeiramente e corremos riscos de nos tornarmos vazios e embalados por frágeis cascas. Sem ele, não conseguimos enfrentar situações cotidianas para fazermos diferença. Sem repertório não passamos de pessoas gritando no meio das manifestações, ou contando histórias tristes exigindo mudanças políticas e sociais através de discursos tão rasos quando uma poça d’agua.

Sem repertório podemos nos tornar irresponsáveis.

Infelizmente estamos abarrotados de discursos "poderosos", porém sem profundidade de conteúdo nos dias de hoje em meio a tanta coisa, onde a liberdade de expressão faz-nos parecer corretos. Já que se pode falar muito, infelizmente o muito que acabamos falando, não poucas vezes, acaba se tornando descartável.

Repertório é experiência de vida. É observação também. Repertório é silenciar na hora certa para observar os acontecimentos ainda que seja um exercício difícil. É também leitura acadêmica, social, ficção, cultural, histórica, e o que mais tivermos acesso. Repertório é olhar para uma sociedade em transformação e ver que ela não está apenas evoluindo, mas involuindo em inúmeros aspectos. Aquele conselho que recebemos de nossos pais desde o colo até hoje; uma conversa com um amigo, um olhar ofertado ou recebido também são repertório. Repertório é observar as informações que a mídia nos traz e criarmos senso crítico a respeito. Repertório é usarmos jargões como “Fora Dilma/Temer”, “Foi/Não foi golpe”, “fascistas, facínoras, preconceituosos, machistas, feministas” - que adoramos gritar nos últimos tempos - e para cada uma destas definições, termos um dicionário ao nosso lado além do google, e pesquisar as origens e aspectos históricos dos movimentos sociais/políticos que criaram tais eventos. Repertório é nos conhecermos, ter compreensão do que falamos e saber qual a relação que aquilo tem com conosco, nosso meio, a sociedade e se o que falamos tem impacto positivo ou negativo, se é sustentável ou não.

Não adianta existir o poder da fala/retórica/discurso, se não existe o poder do repertório. O mundo está repleto de irresponsabilidade e corremos o risco de nos tornarmos papagaios de pirata que repetem discursos que soam atraentes, mas não se sabe nem se entende o que dizem na verdade. Sejamos diferentes de fato, responsáveis porque sabemos o que falamos, para quem e quando necessário, e não estimulados pela necessidade de afirmação que essa “liberdade” fantasiosa nos propõe. Abrir a boca sem repertório pode ser escravidão e irresponsabilidade, e não liberdade.



Talvez faça sentido, começarmos a utilizar o gloogle acadêmico além do google, onde corremos o risco de considerar qualquer informação de qualquer fonte uma verdade absoluta. Que entremos num sebo, sintamos o cheiro da história, toquemos nos livros e compremos aquelas coleções antigas dos pensadores - os chamados pocket books - além de apenas ficarmos conectados aos nossos smartphones durante tanto tempo. Que observemos a genialidade do Davi de Michelangelo, com seus mais de 5 metros de altura, e está exposto ao mundo há mais de 500 anos, da mesma forma que fazemos com os filmes hollywoodianos que tanto adoramos. Que pesquisemos as fontes e veracidade das informações recebidas e leiamos as matérias, analisemos os áudios e vídeos que disparamos todo o tempo indiscriminadamente sem chegar ao final do conteúdo, no lugar de apertarmos qualquer botão de compartilhamento. Que lembremos que o diário de Anne Frank é a história real de uma menina judia que aos 16 anos morreu no holocausto além de nos divertirmos com a deliciosa comédia O Diário de Bridget Jones. Que conheçamos a história por trás dos retratos do Prêmio Pulitzer sobre a realidade nua e crua  do mundo, com a mesma importância que damos às nossas inúmeras selfies do dia a dia. Que lembremos da história da indústria automobilística brasileira através da infelizmente falida Gurgel, fundada no início de 70, ao ver o desfile dos importados em nossas ruas nos dias de hoje. Que descubramos que Beethoven num período de 30 anos perdeu progressivamente sua audição e conseguiu fazer o que fez na música, no lugar de repetirmos coros de traição e apologias ao sexo fácil nas músicas que somos tão estimulados a consumir nas nossas festas. Que aprendamos que atitude é uma movimentação interna que vem a partir dos valores construídos e auto conhecimento para nos conduzirmos com prudência, sabedoria e estratégia nas situações, no lugar de chamar quem pensa diferente de nós, de recalcados, mandando beijinho no ombro com nossos olhares altivos.


Nossa sociedade será grande, nossas almas nobres e nossa condição de transformar o mundo será ilimitada, se usarmos nossa liberdade de falar... desde que tenhamos repertório. Caso não, seremos apenas papagaios de pirata e mestres em reproduzir discursos rasos ou vazios.

Demétrius Rocha