sábado, 1 de julho de 2017

FUNCIONAR NO AUTOMÁTICO VALE A PENA?

Tem coisas que parecem tão simples, mas só nos damos conta do que são ao perceber a reação do outro.

Um dia desses fui a uma consulta, e notei que cada pessoa atendida no momento do cadastro pela secretária, era informada que deveria olhar para a câmera. Fiquei curioso pois não tinha visto isso dentro de um consultório, mas na própria recepção ou portaria do prédio, onde já havia passado. Pensei qual seria a razão de olhar para a câmera, sendo que notei pelo reflexo da parede atrás dela, que a imagem do paciente aparecia preenchendo toda a tela, tornando mais do que possível a identificação. Pensei que seria uma oportunidade de aprontar uma "pirraça" como diria minha mãe.

Após uns minutos, já sentado à frente da senhora que me atendia, em dado momento:
_ Olhe para a câmera por favor.
_ Desculpe, mas... porque olhar para a câmera?
Ela arregalou os olhos e seu tom tornou-se ácido.
_ Olhe para a câmera por favor, senhor.
_ Minha imagem está aí senhora. A senhora pode tirar a foto.
_ Se você não olhar para a câmera, “o sistema” não aceita e não grava sua imagem.
_ Pode tirar a foto por favor.



Fiquei em silêncio, e não quis olhar para o buraquinho da câmera que nunca identifico e sempre me deixa vesgo nas fotos ou então com o olhar de quem parece estar em outro mundo. J Esse era o meu motivo, mas ela não precisava saber. Estava provocando-a, mas de uma forma bastante educada. Notei que ela simulava algum problema técnico apertando botões inexistentes - lembra do reflexo da parede de vidro? - e virando e batendo a câmera como se estivesse com algum parafuso solto. Era mais importante validar o seu discurso naquele momento, do que dar importância ao que de fato importava, ou seja, fazia sentido aquilo?

Isso me fez lembrar quando tenho atitudes que são corriqueiras, como entrar em casa e acender todas as luzes de todos os cômodos, deixar a torneira aberta enquanto escovo meus dentes, ou passar por toda a equipe da empresa que trabalho sem olhar nos olhos de ninguém quando chego sempre atrasado; ou ao visitar meus pais, não percebendo que passo mais tempo no celular do que perguntando como foi a semana. 

Todos nós realizamos ações no dia a dia que talvez não façam o menor sentido, e simplesmente não percebemos por estarmos no “automático”, e só nos daremos conta, quando então alguém nos questionar a respeito.

Será que minhas ações, embora tão naturais e óbvias para o meu jeito de funcionar, são as melhores? Será que posso aprimorar ou evoluir coisas que não percebo, se refletir a partir de pequenas observações?

Após ser atendido pelo médico, tive que passar na recepção novamente para pegar alguns documentos e enquanto aguardava, percebi que ninguém mais precisava olhar para a câmera ao cadastrar-se. Pelo menos naquele momento, ou dia, não se sabe.

No final, não sei bem o que aquilo significou para a senhora da recepção. Mas pra mim, trouxe um grande aprendizado ao imaginar-me no lugar dela com alguém perguntando o porque de eu fazer/ser/ter isso ou aquilo. Muita coisa fez sentido pra mim naquele dia.

Demétrius Rocha